O sistema público de saúde do Zimbábue está sobrecarregado e sofre com ineficiências operacionais: com apenas dois médicos disponíveis para cada 100 mil pessoas, o país está muito aquém da proporção recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), de um médico para cada mil habitantes. Como resultado, especialistas dividem seu tempo entre hospitais públicos e clínicas particulares, às quais as comunidades urbanas de baixa e média renda recorrem para receber atendimento médico.
Após um acidente de carro no final de 2021, o especialista em tecnologia Panashe Madzudzo inspirou-se a criar a Avalon Health, uma plataforma com tecnologia de inteligência artificial (IA) projetada para automatizar tarefas essenciais e tornar clínicas e consultórios privados mais eficientes e eficazes.
“Recebi um tratamento básico e meu braço foi engessado, e logo depois recebi alta”, lembra Madzudzo. “Um mês depois, minha mobilidade pouco havia melhorado, a dor persistia e não houve nenhum acompanhamento.” Ao buscar ajuda em outro hospital, descobriu que havia sido diagnosticado incorretamente. “O médico de plantão era um substituto temporário, e as anotações no meu prontuário apenas descreviam o tratamento realizado, sem um plano de acompanhamento claro.”
Madzudzo passou seis meses desenvolvendo um modelo de IA, treinando-o com milhares de pontos de dados e amplo feedback de profissionais de saúde e pacientes. “Queríamos garantir que o modelo fornecesse informações médicas precisas e confiáveis e reduzisse o esgotamento de médicos e pacientes na plataforma”, afirma. A Avalon Health oferece experiências de atendimento integradas para médicos e pacientes, ajudando-os a superar a dependência de processos administrativos manuais que aumentam o tempo de espera e a possibilidade de erros, geram informações desconexas sobre os pacientes e sobrecarregam profissionais de saúde – fatores que contribuem para atrasos em clínicas e para uma frustrante falta de acessibilidade no Zimbábue.
O produto final foi lançado oficialmente em julho de 2022, com um sistema de gerenciamento de prontuários eletrônicos que organiza dados a partir de documentos digitalizados e anotações em texto livre, garantindo que os registros permaneçam organizados e acessíveis tanto para pacientes como para médicos. A ferramenta de faturamento automatizado cruza as anotações clínicas com tarifas locais e os códigos da CID-10, a Classificação Internacional de Doenças, para criar rascunhos precisos de faturas, reduzindo os erros de cobrança em 25%. O recurso Smart Follow-Up agenda revisões, acompanha pacientes durante a recuperação e envia lembretes sobre procedimentos ou retornos futuros com base nas recomendações médicas e no diagnóstico. Já a ferramenta Medical Dictation converte conversas entre médico e paciente em rascunhos de anotações clínicas com 99% de precisão em inglês e mais de 75% em shona e ndebele.
Madzudzo planeja incorporar zulu e tswana para usuários da África do Sul e está treinando a plataforma para aumentar sua precisão em shona e ndebele.
A Avalon Health oferece diferentes modelos de assinatura para atender a diversas necessidades. O plano padrão cobre até cinco usuários e custa US$ 80 por mês ou US$ 350 por seis meses, enquanto o plano premium custa US$ 150 por mês. Para garantir a privacidade e a segurança dos dados dos usuários, a plataforma usa criptografia ponta a ponta e acesso por um portal seguro, em conformidade com a Lei de Cibersegurança e Proteção de Dados do Zimbábue, a Lei de Proteção de Informações Pessoais da África do Sul, o Regulamento Geral de Proteção de Dados da Europa e as regulamentações dos Estados Unidos.
A Avalon Health funciona em hardware básico e smartphones e facilita a transição do papel para os registros digitais por meio de uma interface simples. Com a plataforma, médicos conseguem atender até 40 pacientes por dia, reduzindo o tempo de espera de mais de 45 minutos para apenas 20 minutos.
Atualmente, a Avalon Health atende mais de 7 mil pacientes por meio de uma rede de cem médicos, principalmente na capital, Harare, com clientes também em Bulawayo, Mutare e na África do Sul.
Madzudzo financiou a pesquisa e o desenvolvimento da plataforma com US$ 10 mil de recursos próprios, além de subsídios do POTRAZ Innovation Drive e do programa AI-first Startup Cohort da Google for Startups, que hospedou a plataforma no Google Cloud.
Nos próximos dois anos, ele pretende consolidar a presença da Avalon Health no Zimbábue antes de expandir. “O Zimbábue é nossa base e planejamos continuar concentrando nossos esforços aqui antes de expandir, provavelmente para as regiões da SADC [Comunidade de Desenvolvimento da África Austral]”, afirma Madzudzo.
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