Empreendedores ativistas do Iraque

Um coletivo de empreendedores iraquianos precisou suavizar suas posições diante da falta de financiamento e de ofertas de aquisição de grandes empresas
Ilustração de Anastasia Vasilakis

Quando jovens empreendedores no Iraque iniciaram, em 2013, um movimento para construir um novo ecossistema de startups, seu objetivo era reinventar a convulsionada economia do país. Porém, à medida que o financiamento para suas atividades foi se esgotando e duas de suas startups foram adquiridas, seus ideais originais se transformaram. 

Um novo artigo explora como ativistas que buscam resolver grandes problemas sociais “podem aceitar negociar sua visão para o futuro do campo e, portanto, como tais ideologias podem se dissipar, convertendo-se em ideias negociáveis”.

A autora, Anne-Sophie Sabbatucci, é doutoranda na Universidade de Indiana, onde estuda empreendedorismo. No centro de sua pesquisa está o conceito de grandes desafios, problemas sociais complexos que não têm soluções simples e exigem ação coletiva em larga escala. Ao longo da última década, os iraquianos vêm enfrentando o grande desafio de revitalizar sua economia devastada pela guerra.

O trabalho de Sabbatucci se concentra no movimento formado por um grupo de jovens empresários formado para fomentar startups iraquianas. Eles queriam construir um setor privado livre de corrupção, de corporações gananciosas e de um governo opressor e ineficaz.

O grupo recebeu financiamento de agências de desenvolvimento e criou uma comunidade de empreendedores que fundaram novas empresas e contrataram funcionários. Com o tempo, porém, os recursos diminuíram e a ideologia compartilhada começou a ser pressionada. Quando duas das primeiras startups foram adquiridas por grandes corporações, surgiu a dúvida: os membros mudariam de mentalidade e deixariam de criticar a influência corporativa?

O grupo adotou uma postura mais pragmática e flexibilizou seu posicionamento. A evolução do movimento lança luz sobre como ideologias podem mudar ao longo do tempo quando a realidade se impõe sobre convicções firmemente mantidas. “Objetivos e visões iniciais ambiciosas para o campo são frequentemente modificados”, escreve Sabbatucci.

Para estudar o desenvolvimento do empreendedorismo iraquiano entre 2013 e 2024, Sabbatucci empregou teorias da microssociologia e realizou três viagens ao Iraque. Conduziu 90 entrevistas antes de janeiro de 2023 e outras 75 depois, em alguns casos com as mesmas pessoas. Ouviu 64 entrevistas de um podcast local sobre empreendedorismo, leu cerca de 5 mil páginas de relatórios, blogs e publicações em redes sociais, e reuniu um acervo de documentários, webinars e gravações de áudio.

Em suas visitas ao campo, observou os espaços de trabalho e as casas dos entrevistados, além de participar dos eventos do grupo. Também estudou a história do país, como forma de contextualizar o movimento empreendedor.

Ela observou que, após as aquisições das startups, a crescente influência de corporações e financiadores sobre as organizações sem fins lucrativos do movimento levou ao abrandamento de suas posições e atividades. Embora o grupo tenha continuado a realizar eventos como oficinas de capacitação, passou a patrocinar menos programas diretamente ligados ao empreendedorismo, como incubadoras.

“Como resultado da dissipação da ideologia empreendedora, parte de suas ideias, junto com o grupo original, sobreviveu para influenciar a transformação do setor privado no Iraque”, escreve Sabbatucci. Sua pesquisa lhe permitiu enxergar a trajetória mais ampla de mudança, à medida que o grupo abandonava a exigência de que suas atividades permanecessem separadas do mundo corporativo.

“Este artigo explora um paradoxo intrigante entre as ideias ambiciosas que muitos coletivos de base mantêm para seu campo e a dificuldade de mudar e moldar essas ideias”, diz Sophie Bacq, professora de empreendedorismo social no Instituto Internacional de Desenvolvimento Gerencial da Suíça.

A pesquisa de Sabbatucci também aponta caminhos para entender como e por que o empreendedorismo pode desencadear mudanças dentro de uma economia e da sociedade em geral, diz Todd Schifeling, professor associado de administração na Universidade Temple. “Aprendemos como defensores do empreendedorismo no Iraque buscam construir um movimento e uma ideologia coerentes, enfrentam resistência e retrocessos e, então, reorganizam e reformulam seu movimento para melhor entrelaçar sua visão com o sistema existente.” 

Pesquisa: “Echoes of a Field Ideology: The Journey of a Collective’s Ideas to Develop Iraq’s Private Sector”, por Anne-Sophie Sabbatucci.

*Em junho de 2025, o Stanford Center on Philanthropy and Civil Society (Stanford PACS), sede acadêmica da SSIR, realizou seu Fórum de Acadêmicos Júnior em parceria com o Seminário Doutoral em Empreendedorismo Social e Filantropia (SEPHI, na sigla em inglês) na ESSEC Business School, em Paris. Os artigos da seção de Pesquisa da edição 14 apresentam trabalhos de pesquisadores que participaram do fórum.

Ouça também: SSIR Brasil Entrevista: Inovadores de Impacto

Autor(a)

Chana R. Schoenberger

Jornalista em Nova York, escreve sobre negócios, finanças e pesquisa acadêmica. Você pode segui-la no X: @cschoenberger