Se há algo que distingue o papel da filantropia na atual crise provocada pelo desmonte do Estado liberal promovido pelo governo Trump nos Estados Unidos, é o grau de implicação da própria filantropia, como instituição, nesses ataques. Ela não é apenas uma resposta externa às investidas, mas também um de seus alvos.
Isso significa que questões acerca da legitimidade da filantropia – qual valor ela oferece ao público, quão responsiva é às necessidades da sociedade e como se alinha às normas e instituições democráticas – devem estar no cerne de sua resposta ao momento atual. Há ao menos três maneiras pelas quais esse imperativo pode servir como oportunidade construtiva para mudanças duradouras.
1. A filantropia deve se preocupar menos com riscos morais e mais com a potencial mensagem do socorro filantrópico. | A resposta da filantropia aos cortes governamentais nos Estados Unidos tem sido marcada pelo medo de que, ao intervir para apoiar programas, serviços e instituições que perderam recursos, ela possa conferir uma espécie de autorização social para o desmonte promovido pelo governo, legitimar uma nova fronteira entre a responsabilidade pública e a privada, além de reduzir permanentemente o território da primeira. É por isso que a maioria das declarações públicas ou anúncios de financiamento de um grande doador ou fundação vem acompanhada de uma ressalva: “a filantropia não pode substituir o governo”.
Do ponto de vista puramente matemático, essa avaliação é correta (embora as disparidades sejam menos extremas quando se fala em gastos governamentais discricionários não militares). No entanto, deixar que essa lógica domine o discurso pode servir de pretexto para a inação e enfraquecer o poder que a filantropia tem de redefinir prioridades – e valores – públicos. Neste momento, o foco da filantropia deveria estar menos em evitar o risco moral de incentivar a privatização e mais em ajudar o público a compreender o valor dos serviços prestados por organizações sem fins lucrativos que perderam o apoio do governo. Uma das maneiras mais diretas de financiadores fazerem isso é converter palavras em recursos, atuando (e financiando) com ousadia para preencher as lacunas deixadas pelos cortes governamentais, tornando pública a urgência e a tragédia do “socorro filantrópico” que são obrigados a realizar e aproveitando essa visibilidade para mobilizar apoio público a esses programas e instituições como beneficiários legítimos de futuros investimentos governamentais.
A filantropia deve ocupar seu lugar dentro da sociedade civil, como parte essencial dela e como contribuinte ativa de sua defesa
A filantropia deve apoiar as organizações que facilitam esse processo de “socorro seletivo” (um exemplo é o Project Resource Optimization, que ajuda a conectar instituições filantrópicas a programas de assistência humanitária que perderam financiamento após o governo Trump fechar a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional, a Usaid, na sigla em inglês). Mas a filantropia também deve ajudar as organizações sem fins lucrativos a defender sua própria causa. A oportunidade de fazê-lo é enorme e representa o outro lado da moeda do perigo que essas organizações estão enfrentando. A realidade (ou a ameaça) da ausência, como os casais românticos bem sabem, pode ajudar a evidenciar o valor. No entanto, é preciso comunicar o que essa ausência significaria. A Universidade Harvard tem um fundo patrimonial (ao menos por enquanto) que lhe permite reformular seu site para destacar as contribuições de suas pesquisas. Poucas organizações sem fins lucrativos dispõem de recursos semelhantes. A filantropia deve ajudar as organizações que apoia a comunicar os danos causados pelos cortes, oferecendo financiamento (apoio operacional irrestrito sempre ajuda) e assistência técnica, além de fortalecer os esforços de organizações que coletam e divulgam os impactos desses cortes.
2. Ter ciência dos limites das entregas filantrópicas. | Outra lição correlata que a atual crise tem ensinado é que não se pode pressupor que os serviços prestados por organizações sem fins lucrativos vão falar por si sós; grande parte desse trabalho não é amplamente visível ou compreensível, ou simplesmente é dada como garantida. Essa lição ficou evidente no campo político: a eleição de 2024 nos Estados Unidos deixou claros os limites do deliverism, a teoria política segundo a qual os eleitores recompensariam aqueles no poder por lhes oferecerem “resultados legislativos concretos”.
Para alguns, o reconhecimento desses limites indicou a necessidade de educar melhor os eleitores sobre o que, de fato, estava sendo entregue, e, como a discussão acima sugere, isso também se aplica à filantropia. No entanto, os limites do deliverism são mais amplos, na política e na filantropia, e vão além de uma compreensão puramente transacional da relação entre aqueles que detêm poder e o público que servem.
Em um artigo premonitório publicado em 2023 na revista Democracy, Deepak Bhargava (atual presidente da Freedom Together Foundation), Shahrzad Shams e Harry Hanbury desenvolvem esse sentido mais profundo de uma forma que também pode servir de orientação para a filantropia neste momento. “Resolver o desafio do autoritarismo exige um programa progressista e uma estratégia de mobilização que abordem diretamente, e de maneira convincente, a onda de infelicidade e desespero, e que estejam enraizados na textura da vida cotidiana – no que as pessoas realmente conversam, com o que elas se preocupam e se importam”, escrevem eles. Isso significa levar “questões de identidade, emoção e narrativa muito mais a sério”, assim como “conexão social, isolamento e comunidade”.
Ao responder a este momento, a filantropia não pode apostar sua legitimidade nem basear sua reação ao governo estadunidense apenas em destacar programas ameaçados por cortes orçamentários e prometer restaurar parte desse financiamento. Ela precisa enfrentar a toxicidade, a profunda desconfiança e a desconexão social que caracterizam boa parte da vida pública. Esses não são problemas de rápida solução, e vão exigir que a filantropia reconheça como suas próprias práticas contribuíram para esse ressentimento e essa alienação, combatendo a tendência ao isolamento, ao tecnocratismo autoritário, ao jargão e à condescendência. Esses tampouco são problemas que podem ser solucionados rapidamente, mas nunca houve momento mais propício para enfrentá-los.
3. Defender a sociedade civil e o papel da filantropia dentro dela. | Uma maneira de responder à atual conjuntura política, enfrentando as crises contemporâneas de “conexão social, isolamento e comunidade”, é por meio da defesa e da promoção afirmativa da sociedade civil.
Outros governos, no passado, atacaram instituições sem fins lucrativos associadas a seus adversários políticos e ideológicos. O que distingue o governo Trump é seu antagonismo em relação ao setor sem fins lucrativos como um todo e seu ataque à própria sociedade civil, num contexto em que as liberdades de associação, protesto e expressão estão sob ameaça. Uma sociedade civil forte e vibrante, caracterizada pela independência (em relação ao mercado e ao Estado), pelo pluralismo, pelo engajamento cívico ativo e por uma ética de reciprocidade, pode ajudar a oferecer às pessoas um sentimento de conexão e de comunidade.
A defesa da sociedade civil e dos valores que a sustentam apresenta oportunidades de entendimento comum entre diferentes espectros políticos e ideologias. Recentemente, instituições conservadoras como a Philanthropy Roundtable, a DonorsTrust, o Cato Institute e o conselho editorial do Wall Street Journal têm defendido a sociedade civil ao se posicionarem contra a retirada do status de isenção fiscal de organizações sem fins lucrativos consideradas “desfavoráveis” pelo governo ou contra a imposição de aumentos significativos nos impostos sobre fundações privadas.
Uma maneira de responder à atual conjuntura política, enfrentando as crises contemporâneas de “conexão social, isolamento e comunidade”, é por meio da defesa e da promoção da sociedade civil
A filantropia deve ajudar a cultivar essas áreas de convergência, de modo que um amplo conjunto de atores da sociedade civil, de diferentes espectros políticos, possa defender coletivamente as prerrogativas e os interesses da própria sociedade civil. Isso pode exigir novos investimentos em advocacy, para tornar essas prerrogativas mais visíveis ao público, e investimentos contínuos em infraestrutura, a fim de garantir que as organizações da sociedade civil tenham acesso à segurança e ao suporte jurídico de que necessitam. Também implicará apoiar formas alternativas de organização, além do modelo tradicional das entidades isentas de impostos. E certamente demandará a construção de redes e relações entre os diversos componentes da sociedade civil: instituições de caridade, hospitais, universidades, organizações religiosas, sindicatos e coletivos informais.
Ao fazer tudo isso, a filantropia deve se posicionar não apenas com atenção às políticas que colocam em risco seus próprios projetos, mas com cuidado e compromisso com a sociedade civil como um todo. Para isso, a filantropia não precisa liderar a luta, e talvez não deva fazê-lo, se isso significar manter-se distante do restante da sociedade civil. A filantropia deve ocupar seu lugar dentro da sociedade civil, como parte essencial dela e como contribuinte ativa de sua defesa – e isso já é o suficiente. O
*Este texto faz parte da série Coragem e colaboração para construir o futuro.








