Os Estados Unidos enfrentam os ataques mais drásticos à ciência em sua história recente, e observadores do mundo todo estão alarmados. Agências federais de pesquisa sofrem cortes orçamentários sem precedentes, a transparência está em risco e a expertise científica tem sido retratada como partidária. Para muitos no Brasil, este momento soa tristemente familiar. O país saiu há pouco de quatro anos sob o governo de Jair Bolsonaro, um período que revelou como o negacionismo climático e o populismo autoritário se manifestam quando chegam ao poder.
O governo Bolsonaro desmantelou sistematicamente a infraestrutura de pesquisa do Brasil. Os orçamentos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), as duas principais agências federais de fomento à ciência, sofreram uma redução expressiva. Universidades foram perseguidas e pesquisadores receberam o rótulo de “inimigos ideológicos”. Entre 2019 e 2022, muitos cientistas deixaram o país, e áreas inteiras de pesquisa – como biodiversidade, saúde pública e educação – foram duramente atingidas.
O Brasil já viveu o que outros agora temem. Essa experiência oferece lições dolorosas, mas importantes, sobre como a filantropia científica pode – e deve – agir em tempos de hostilidade política.
Equilíbrio delicado
Nos Estados Unidos, a filantropia científica movimenta bilhões de dólares. No Brasil, o cenário é bem diferente. Os maiores financiadores privados da ciência – como Instituto Serrapilheira, Ciência Pioneira, Fundação Grupo Boticário ou Instituto Alana – representam uma pequena fração do orçamento público destinado à ciência. Mesmo em plena capacidade, essas organizações jamais poderiam substituir a responsabilidade do governo federal.
No entanto, essa limitação pode, paradoxalmente, ser positiva. A tentação de enxergar a filantropia como substituta do Estado é uma armadilha para a democracia. A ciência é um bem público, e apenas governos eleitos devem definir uma estratégia nacional e financiá-la de forma predominante. A filantropia pode cofinanciar iniciativas governamentais, mas sua maior contribuição está em outro lugar: na agilidade, na tolerância ao risco e na capacidade de testar modelos alternativos de financiamento. Em vez de “salvar” o sistema, a filantropia pode atuar como seu laboratório criativo, apoiando pesquisas orientadas pela curiosidade, incentivando jovens cientistas a investigar questões ousadas e arriscadas com financiamento flexível. Essa é precisamente uma das missões do Instituto Serrapilheira, uma organização privada e sem fins lucrativos brasileira.
Esse papel complementar preserva tanto a legitimidade da ciência pública como a integridade da filantropia privada. Se a filantropia algum dia buscasse ocupar o lugar do Estado, perderia a capacidade de desafiá-lo.
No entanto, alguns momentos de retrocesso democrático podem exigir intervenções temporárias e pontuais para preservar bens públicos essenciais à ciência e à democracia.
O governo Bolsonaro não apenas negligenciou a ciência – ele ativamente tentou aniquilá-la. Um exemplo marcante surgiu durante a pandemia de covid-19, quando o governo federal minimizou a gravidade da crise sanitária, colocando a população em risco. A iniciativa Todos pela Saúde, liderada pelo Itaú Unibanco em parceria com universidades, hospitais e autoridades públicas, demonstrou como a filantropia pode mobilizar recursos de forma rápida ao mesmo tempo que reforça a capacidade pública. Ao financiar pesquisas, coordenar dados epidemiológicos e apoiar estudos relacionados a vacinas, a iniciativa acelerou a tomada de decisões adequadas e, em última instância, mitigou o impacto de um negacionismo governamental catastrófico.
Outro exemplo foi a restrição do acesso a bancos de dados que monitoravam desmatamento, queimadas e emissões de carbono. Os sistemas de monitoramento por satélite do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) foram alvo de cortes de verbas e campanhas públicas de descrédito, e conjuntos de dados que haviam orientado a fiscalização ambiental por décadas ficaram inacessíveis. As consequências foram imediatas e profundas: sem dados transparentes e verificáveis, o Brasil perdeu parte de sua capacidade de monitorar o desmatamento ilegal, cumprir seus compromissos climáticos e sustentar sua credibilidade nas negociações internacionais.
Esses bancos de dados não são apenas repositórios técnicos – são pilares da governança democrática. Eles permitem que sociedade civil, jornalistas e pesquisadores fiscalizem as instituições e fundamentem o debate público em evidências. Quando tais sistemas entram em colapso, arrisca-se não só a continuidade do trabalho científico, mas a própria capacidade da sociedade de deliberar com base em fatos. A experiência brasileira revelou como a volatilidade política pode minar as infraestruturas que sustentam tanto as políticas ambientais como a confiança democrática.
Após essa ruptura, a filantropia brasileira fez uma reflexão mais profunda sobre como contribuir para proteger a continuidade dos bens públicos. Desde então, fundações têm reunido cientistas, formuladores de políticas e atores civis para discutir modelos de governança compartilhada de dados, explorando como conjuntos de dados cruciais podem ser protegidos de interferências políticas por meio de redundância, acesso aberto e cooperação institucional. O objetivo não é privatizar a gestão, mas fortalecer a resiliência, garantindo que o conhecimento coletivo possa resistir a turbulências políticas sem que a filantropia assuma o controle direto.
O desafio, portanto, é sustentar as evidências sem usurpar a autoridade; manter as luzes do conhecimento acesas enquanto a rede elétrica permanece em mãos públicas. Quando os governos falham, o papel da filantropia é o de preencher as lacunas, não o de redefinir quem governa a ciência. Esse delicado equilíbrio entre continuidade e legitimidade é o que, em última instância, protege tanto a democracia como o avanço científico.
Divulgação científica para combater a polarização
Uma das lições mais contundentes da experiência recente do Brasil é que defender a ciência não é apenas uma questão técnica – é também uma questão política, cultural e cívica. A compreensão pública da ciência determina como uma sociedade reage ao negacionismo climático, aos movimentos antivacina e à desinformação. Em um mundo polarizado, a ciência pode se tornar um precioso vetor de unidade, ajudando as sociedades a reconstruir a confiança e uma realidade compartilhada.
Nos Estados Unidos, a era Trump está marcada por cortes de investimentos não apenas na ciência, mas também no jornalismo científico. Nesse contexto, a filantropia desempenha um papel crucial no apoio a organizações de mídia no país. “De acordo com análises de 2024 da organização Media Impact Funders, entre 2018 e 2022, os 25 maiores financiadores destinaram, juntos, US$ 1,1 bilhão ao jornalismo, e quase três quartos das 47 organizações pesquisadas relataram um aumento no volume de doações ao setor”, reporta a revista Undark.
A filantropia brasileira começou a reconhecer a importância da divulgação científica, mas os investimentos na área ainda são modestos. Nos últimos anos, o Instituto Serrapilheira apoiou mais de 130 iniciativas em meios jornalísticos e mídias digitais, como podcasts e canais no YouTube. Além disso, contribuiu para a criação de plataformas independentes que conectam pesquisadores e jornalistas, facilitando a disseminação do conhecimento científico.
Projetos como a coluna Ciência Fundamental, na Folha de S.Paulo, que explora questões científicas essenciais para uma audiência não especializada a partir do olhar de jovens cientistas, e a Agência Bori, que divulga pesquisas científicas brasileiras para jornalistas cadastrados em sua plataforma, trouxeram novas perspectivas sobre como as histórias da ciência chegam ao público. Além de promover a ciência como uma pauta instigante, essas iniciativas também ajudam jornalistas a navegar por campos complexos, da epidemiologia à modelagem climática.
Apoiar a divulgação científica não é algo acessório à pesquisa – é um investimento estratégico na democracia. O objetivo não é simplesmente “popularizar” a ciência, mas aproximar as pessoas do processo científico e incorporar o pensamento científico ao tecido cultural da sociedade, para que os cidadãos vejam a ciência não como uma linguagem elitista, mas como uma prática de busca pela verdade. Essa visão reafirma que o pensamento científico pertence a todos, não apenas aos laboratórios ou órgãos do governo.
Uma rede global em defesa da ciência
O Brasil de Bolsonaro também expôs uma vulnerabilidade estrutural da pesquisa global: sua limitada capacidade de reagir em momentos de crise política. Milhares de cientistas viram projetos desmoronarem, financiamentos desaparecerem e laboratórios serem desmantelados. Algumas parcerias internacionais conseguiram oferecer um refúgio temporário.
Essa fragilidade evidencia a necessidade de uma abordagem mais coordenada e transnacional para a filantropia científica. Imagine se, durante os anos Bolsonaro, uma rede global de fundações privadas tivesse oferecido bolsas emergenciais ou posições temporárias no exterior para cientistas brasileiros ameaçados. Hoje, um sistema desse tipo poderia funcionar em ambas as direções: a América Latina, a Europa e outras regiões também poderiam acolher pesquisadores dos Estados Unidos cujo trabalho se torne politicamente insustentável em seu país.
Essas conexões poderiam funcionar como uma rede de proteção para a ciência global, preservando a continuidade das pesquisas e o fluxo internacional de conhecimento. Poderiam ser estruturadas a partir de modelos já existentes, como fundos de resposta rápida, programas de mobilidade compartilhada e parcerias de dados de acesso aberto, de modo a garantir que as comunidades científicas permaneçam resilientes mesmo quando a política nacional se enfraquece.
À medida que a instabilidade democrática se espalha por vários países, essa ideia se torna cada vez mais estratégica. Ciclos políticos são voláteis, mas a ciência depende de horizontes de longo prazo. A colaboração filantrópica internacional pode, portanto, atuar como uma força estabilizadora – um meio de preservar a investigação científica, promover o intercâmbio e resistir ao isolacionismo. Uma defesa em rede da ciência não é um luxo; tornou-se um requisito para a sobrevivência de sociedades baseadas em evidências.
*Este texto faz parte da série Coragem e colaboração para construir o futuro.









